A PROPÓSITO DA VIDA NO PENSAMENTO DE JASPERS

Se quisermos que nossa vida não se perca e se disperse, é preciso que ela seja posta no seio de uma ordem. É preciso que ela tenha uma estrutura única, realizando-se e despertando bons momentos; enfim, que ela se aprofunde pela repetição. Sendo assim, não cairemos na monotonia, a vida terá beleza e espírito de graça, segundo o qual nós sabemos que ela tem um sentido. Então, estaremos protegidos pela consciência que temos do mundo e de nós mesmos; temos um solo, temos uma história, a qual pertencemos, e à nossa vida pertencemos pela lembrança e pela fidelidade.

A pessoa pode encontrar ordem desse gênero no mundo onde nasceu, na Igreja que dá tão bem sua forma e sua alma às grandes t=etapas da vida, do nascimento à morte, até mesmo nos pequenos contratempos da vida diária. O homem aceita, então, esta ordem, que se lhe apresenta cada dia, na realidade que o envolve. Por outro lado, ele vive num mundo onde se crê, mais ou menos, nos valores tradicionais, este mundo é apenas, uma ordem exterior. Desnudado de todo pensamento simbólico e transcendente, abandona a vida. Não se satisfaz.

Entregando-se ao turbilhão diário dessa ordem exterior, o homem conserva-se aparentemente livre, mas se mantém livre de si mesmo, entregando-se à angústia e à indiferença. Ele está só, sem apoio. Se, porém, o homem pretende dar a sua vida um sentido filosófico, deve construir com suas próprias forças, o que o mundo ambiente não lhe pode dar.

A vontade de se conduzir filosoficamente, através da vida surda da obscuridade, em que se encontra privado do amor, deve conduzi-lo a olhar fixamente a vida e sentir o estado de demissão e anonimato, em que existe, devorado que é pela máquina cotidiana.

Só assim, chegará a um despertar e se perguntará: “Que sou?” “Que devo fazer?”

O anonimato cresce com o reino da técnica.

Neste mundo tão cheio de solicitações, o indivíduo acaba se sentido não mais ele próprio, mas uma peça inserida numa máquina. Apesar de ser livre, ele nada é, e não sabe o que fazer. E então, começará a não se encontrar no colosso deste mundo, que o absorve, incorporando-o à máquina devoradora e lançando-o a seu trabalho vazio e aos vãos cuidados e prazeres. Para que o homem não se perca, é preciso que se encontre a si mesmo.

Se o homem quiser filosofar, é mister que descubra em si mesmo uma fonte de vida, que reencontre sua força interior, que se apóie em si próprio, em toda a medida de sua força.

Naturalmente, que este plano de vida tem de responder às exigências diárias. Entretanto, se ele quer ter uma conduta filosófica, não se contentará exclusivamente com as obrigações imediatas. Perceberá que trabalhar apenas, porque é necessário, já é estar no caminho da carência e culpabilidade. Tomará a sério os encargos humanos, recusará o esquecimento para assimilar profundamente a vida; não considerará o passado como liquidado, mas, ao contrário, como esclarecedor do dia futuro. Tudo isto será então uma conduta filosófica.

A conduta filosófica se realiza de duas maneiras: pela meditação e pela comunicação com os homens, pela compreensão mútua.

Para o ser humano, é indispensável o recolhimento por alguns instantes durante o dia. O que as religiões cumprem pelo culto e pela prece, realiza-se de modo semelhante no plano filosófico. Contudo, contrariamente ao culto, o recolhimento filosófico não tem objeto sagrado, nem lugar santo, nem forma fixa. A ordem que inventamos para ele não possui regras, permanece como simples possibilidade, sem contrato o compromisso. Ao contrário, da comunidade do culto, este recolhimento é solitário. Qual o conteúdo de tal meditação?

1º - Reflexão sobre si mesmo – Pergunto-me o que faço, penso, examino o que tenho de falso, em que momento faltei com a sinceridade para comigo mesmo, ensaiei de me derrotar, faltei com a lealdade. Passo em revista os pontos em que não estou de acordo comigo mesmo, e aqueles em que gostaria de estar. Descubro princípios nos quais gostaria de regrar minha conduta, decorando inclusive, fórmulas mágicas para dizer-lhe no momento de cólera, de desespero; por exemplo: pensar que Deus existe.

2º - Meditação para a transcendência – Guiado pelo pensamento filosófico, busco me assegurar do Ser enquanto Ser, da divindade. Decifro signos com o auxílio da poesia e da arte.

Enfim, nós meditamos sobre o que temos de faze agora. O exame do que foi a nossa vida na comunidade fornece o último plano para esclarecer nossa tarefa atual, até nos detalhes da presente jornada, em vista do momento onde, na intensidade indispensável à ação prática, salvamo-nos de perder o fio do englobante.

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*Algumas notas do Capítulo XI, da obra de Karl Jaspers, “Introduction a La Philosophie”. Paris, Plon, 1954. Pag. 165 e seg.
 

Marilu Vargas
1960